Ansiedade e Saúde Emocional
Setembro Amarelo: falar sobre suicídio é sempre prevenção?
O Setembro Amarelo ampliou a discussão sobre prevenção ao suicídio no Brasil, mas as taxas de mortalidade continuaram crescendo nos últimos anos. Isso não significa que a campanha tenha causado esse aumento. Neste artigo, discutimos o que as evidências mostram sobre os limites das campanhas de conscientização e por que falar sobre suicídio exige comunicação responsável, acesso ao cuidado, profissionais preparados e uma estrutura de prevenção que continue muito além do mês de setembro.
Keila Cavalcante · 21 de setembro de 2026 · 7 min de leitura

Todos os anos, setembro chega acompanhado de uma grande mobilização em torno da saúde mental e da prevenção ao suicídio. Empresas, escolas, profissionais de saúde e redes sociais passam a falar mais sobre sofrimento emocional, busca por ajuda e valorização da vida.
Essa mobilização tem uma intenção importante: romper o silêncio e facilitar o acesso à informação.
Mas existe uma pergunta que também precisa fazer parte dessa conversa:
Falar sobre suicídio é, por si só, prevenir o suicídio?
A resposta não é tão simples.
O que aconteceu com os índices de suicídio no Brasil?
O Setembro Amarelo ganhou dimensão nacional no Brasil a partir de 2015. Desde então, o tema passou a ocupar um espaço muito maior na sociedade.
Apesar disso, as taxas de suicídio não diminuíram.
Estudos que analisaram dados brasileiros identificaram crescimento das taxas ao longo dos anos. Uma pesquisa publicada no Journal of Affective Disorders, que avaliou dados do DATASUS entre 2000 e 2019, encontrou aumento de aproximadamente 57% na taxa de suicídio durante o período analisado e identificou uma aceleração da tendência a partir de 2015.
Mas aqui existe um cuidado fundamental:
isso não significa que o Setembro Amarelo tenha causado o aumento dos suicídios.
Uma coisa acontecer depois da outra não significa que uma tenha provocado a outra. Os próprios pesquisadores ressaltam que o desenho do estudo não permite estabelecer essa relação de causa e efeito.
O dado, portanto, não deveria ser utilizado para atacar a campanha.
Ele deveria nos levar a uma pergunta mais importante:
Se estamos falando cada vez mais sobre suicídio, por que isso ainda não foi suficiente para reduzir o problema?
Conscientizar não é o mesmo que prevenir
Imagine uma pessoa que esteja sofrendo silenciosamente há meses.
Durante uma campanha, ela assiste a uma palestra ou encontra uma publicação e finalmente reconhece que aquilo que está vivendo é grave.
A conscientização cumpriu uma função importante: ajudou essa pessoa a perceber que precisa de ajuda.
Mas o que acontece depois?
Ela sabe onde procurar atendimento? Existe acesso ao cuidado? Sua família sabe como acolhê-la? Haverá alguém preparado para avaliar a gravidade da situação? Existirá acompanhamento depois da crise?
Esse é um dos pontos centrais quando falamos em prevenção.
Não basta abrir a conversa. É preciso existir uma estrutura capaz de sustentar aquilo que a conversa revela.
A Organização Mundial da Saúde considera que campanhas de conscientização podem fazer parte das estratégias de prevenção, mas as evidências não sustentam a ideia de que campanhas de mídia, isoladamente, sejam suficientes para reduzir mortes por suicídio, tentativas ou comportamentos de autolesão.
A prevenção precisa ser mais ampla.
O problema não é falar. É falar de qualquer maneira.
Durante muito tempo, criou-se também a ideia de que mencionar suicídio seria, por si só, perigoso.
Isso é uma simplificação.
O silêncio não protege necessariamente uma pessoa em sofrimento. Conversas responsáveis podem favorecer reconhecimento, acolhimento e busca por ajuda.
Entretanto, a maneira como o assunto é apresentado importa.
A OMS recomenda cuidados específicos na comunicação sobre suicídio. Conteúdos sensacionalistas, descrições detalhadas de métodos, romantização, simplificação das causas ou exposição excessiva de determinados casos podem ser prejudiciais, especialmente para pessoas vulneráveis.
Por outro lado, uma comunicação responsável pode apresentar possibilidades de enfrentamento, recuperação, acesso ao cuidado e esperança.
Portanto, talvez precisemos substituir a frase:
“Precisamos falar mais sobre suicídio.”
por uma formulação mais completa:
“Precisamos aprender a falar melhor sobre suicídio — e saber o que fazer depois dessa conversa.”
Uma frase bonita não substitui cuidado
Durante setembro, encontramos muitas mensagens como:
“Você não está sozinho.”
“Sua vida importa.”
“Peça ajuda.”
São mensagens importantes, mas alguém vivendo sofrimento intenso pode precisar de muito mais do que uma frase.
Pode precisar de uma pessoa preparada para escutar.
Pode precisar de avaliação adequada.
Pode precisar de acesso a serviços de saúde.
Pode precisar que familiares e pessoas próximas saibam reconhecer sinais de risco.
Pode precisar de acompanhamento continuado.
E pode precisar que esse cuidado continue existindo quando setembro acabar.
O sofrimento psicológico é complexo. A Terapia de Aceitação e Compromisso, por exemplo, chama atenção para a amplitude do sofrimento humano e propõe compreendê-lo dentro do contexto da vida da pessoa, trabalhando processos relacionados à flexibilidade psicológica, aos valores e às formas como nos relacionamos com nossas experiências internas.
Da mesma forma, a Terapia Focada na Compaixão trabalha a partir de uma compreensão biopsicossocial e coloca as relações de cuidado, apoio e conexão no centro de sua compreensão do sofrimento humano.
Isso nos lembra de algo essencial:
problemas complexos dificilmente são resolvidos por respostas simples.
Então o Setembro Amarelo não funciona?
Também não podemos concluir isso.
Os estudos disponíveis não demonstram que o Setembro Amarelo tenha provocado o crescimento dos suicídios.
Mas também nos convidam a ter cautela com a ideia de que aumentar a visibilidade do tema seja suficiente para produzir redução das mortes.
Talvez estejamos esperando de uma campanha aquilo que depende de uma estrutura muito maior.
Prevenção envolve informação, mas também envolve acesso ao cuidado, identificação de pessoas em risco, profissionais preparados, redes de apoio, acompanhamento e políticas públicas permanentes.
Por isso, a pergunta mais produtiva talvez não seja:
“O Setembro Amarelo funciona?”
Mas:
“O que precisa existir além do Setembro Amarelo?”
Setembro termina. A prevenção não pode terminar com ele.
Precisamos continuar falando sobre suicídio.
Mas precisamos falar com responsabilidade.
Precisamos incentivar as pessoas a procurar ajuda.
Mas também precisamos construir caminhos para que elas encontrem ajuda quando decidirem procurá-la.
Precisamos conscientizar.
Mas precisamos compreender que conscientização é apenas uma parte da prevenção.
O crescimento das taxas brasileiras não demonstra que o Setembro Amarelo seja responsável pelo problema. Ele mostra algo mais complexo e desconfortável:
uma sociedade pode falar muito sobre prevenção e, ainda assim, não possuir toda a estrutura necessária para prevenir.
Talvez o verdadeiro valor do Setembro Amarelo esteja justamente em ultrapassar setembro.
Não transformar prevenção em uma campanha anual, mas em uma cultura permanente de cuidado.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“Você está bem?”
Talvez seja:
“Se a resposta for não, existem caminhos reais para cuidar de você?”
Importante: este conteúdo é informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento profissional. Em situações de risco imediato, procure um serviço de urgência. No Brasil, o CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.